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Blog Bestialmente Conhecido

Um acordo tão simples

No domingo combinei com ele. O rapaz dos acordos. Vou buscar-te quando sair do trabalho e vamos juntos ao continente ver os brinquedos.

Gosta genuinamente de ir ao Continente ver a secção de brinquedos. Faz perguntas, quer saber as diferenças entre o que faz uma coisa e a outra. Inventa histórias para os bonecos que não tem e diz que um dia vai comprar este e aquele, enfim, todos.

Não faz birras por não trazer brinquedos, não finca pé e fica tão contente com um carrinho de 1 € como com uma miniatura da Patrulha Pata.

Foi uma coisa que aconteceu de forma gradual, às vezes vamos com ele à Toys ur Us ver brinquedos, muitas vezes durante a semana vai com o avô ao Continente comprar alguma coisa para o almoço ou só ver as modas. É uma forma de dar um passeio perto de casa e de não ficar fechado em casa quando está mau tempo.

O que é facto é que, como está habituado a ir às grandes superfícies, a ver os brinquedos e a sair de lá de mãos a abanar, não faz finca pé de nada e não há lugar a birras, o pior que já aconteceu foi ele querer continuar a “ver” um brinquedo, que é o mesmo que dizer, a brincar com os bonecos de exposição, e nós termos de nos ir embora.

 

Combinei com ele. Fiz um acordo. Era domingo, fomos fazer as compras, fomos brincar ao jardim e tínhamos de ir para casa. Havia tarefas para concluir porque a semana de trabalho estava à porta.

Aceitou o acordo.

 

Ontem não consegui sair a horas. Fiquei retida para tratar de uma questão que chegou mesmo em cima da minha hora de saída. Quando cheguei ao carro o Nuno disse-me que tínhamos de ir pela Vasco da Gama, o dobro dos quilómetros. Quando há acidente em cima da Ponte 25 de Abril o tempo de chegada a casa é indeterminável.

 

Conseguimos chegar ainda era de dia, o jardim perto de casa estava mesmo como eu gosto, repleto de crianças a brincar, os mais pequenos com os pais ou os avós, pessoas a correr, a secção de exercício cheia, donas de casa reformadas a apanhar banhos de sol, a esplanada do café cheia de gente que aproveitou um bom fim de tarde para beber uma cervejinha ou um sumo ao ar livre.

 

No meio do jardim lá estavam, a fazer preparativos para rumar a casa: Sôtor, a avó, o avô e o Boris (o cão ultra esgrouviado).

 

O Nuno parou o carro do outro lado do jardim, eu saí e ele foi para casa fazer o jantar.

 

Quando o chamei nem pareceu reconhecer-me. Foi uma alegria tão grande que parece que susteve a respiração por 2 segundos.

 

- Mãe, nem parecias tu com os óculos na cara!

 

Um abraço do tamanho do mundo. Sentido.

 

- O que é que a mãe te prometeu ontem?

- Que íamos ao Tinente.

- Então vamos.

 

E fomos. Os avós seguiram para casa. E nós fomos pelo jardim.

 

Estava tão feliz que parecia que tinha ganho o Euromilhões. É fantástico como as crianças ficam completas com tão pouco. Quando é que perdemos isto? Quando é que, na nossa cabeça, a vida nunca chega, é sempre preciso mais, mais e mais?

 

Conversou, contou o dia, disse-me que tinha emprestado um brinquedo a um menino que estava a chorar e que o menino se tinha acalmado por isso.

 

De vez em quando suspirava, um inspirar fundo de quem controla a excitação.

 

Fomos a pé ao Continente. Vimos os brinquedos. Comprámos pequeno almoço para o dia seguinte. Comentámos tudo o que havia. Ganhou um bolo de arroz (do qual comeu menos de um terço). Conversámos de regresso.

Encontrámos a Camila e cumprimentámos a vizinhança.

 

Passou todo o serão mais calmo. Mais satisfeito. Como se tivesse recebido a dose de atenção que precisava para estar tranquilo.

 

Eu fui deixando para trás o dia desgastante que tive. O mau humor foi dando lugar aos risos a cada história que ele me contava. Dei por mim sem me aperceber das horas.

 

Chegámos a tempo de jantar.

 

Hoje de manhã acordou satisfeito. Perguntou se ia para os avós ou ficava em casa. Chorou porque ia para os avós. Tratam-no como um príncipe, mas o colo da mãe e do pai são o colo da mãe e do pai.

 

Fizemos um acordo. Vou fazer de um tudo para o ir buscar outra vez. Para irmos ao Continente ver os brinquedos.

 

Porque o Continente pouco importa, os brinquedos de pouco contam. É o tempo que passamos juntos, sem pensar em mais nada. É isso que ele mais quer. E é isso que mais me encanta.