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Blog Bestialmente Conhecido

Um punhado de genes, uma nutricionista e um jesuíta

O meu pai é uma pessoa peculiar, como aliás também eu sou. Fuma, gosta do seu whiskey e da sua jola fresca. Aprecia um bom cozido à Portuguesa e tem preferência por uns bolinhos com manteiga ao pequeno almoço.

O meu pai, homem sempre atento ao que lhe convém – condição de reformado que lhe permite fazer o que lhe dá na real gana – sempre que tem consulta marcada envereda numa empreitada de “alimentação equilibrada” 2 dias antes de se apresentar perante o médico. Sempre que me diz que jantou um peixinho grelhado com uma salada, eu ouço “dia 23 vou ao médico”. Já sei que, daí a dois dias lá vai ele mostrar exames, fazer análise, o que for. Objetivo: mostrar ao médico que cumpre com o que ele manda fazer, mas que mesmo assim a vida teima em lixa-lo mantendo as análises com resultados menos do que desejáveis. E sim, poderia mentir, podia inventar, mas, como não sabe pregar petas convenientemente e, porque também ele precisa de acreditar que as coisas não estão melhores porque todo o Universo conspira contra si (não é nada que ele faça mal, shhshshshshshssh), transforma-se num homem saudável. Até vai ao pão a pé. Nos outros dias vai de carro porque está cansado. E atenção! O homem faz muita piscina, não necessariamente piscinas molhadas de óculos abelha e em posição bruços, mas piscinas quarto-sala, com agachamento no senta sofá, levanta sofá.

 

Vai disto e eu, que para além de hipocondríaca – que quer dizer que tenho muitas doenças imaginárias e quase já morri 3452452425 vezes, só no último ano – sou pessoa que, de facto, tem maleitas ao nível físico, especificamente associadas ao trato gastrointestinal, decidi, tarararararara! ir à nutricionista. Objetivo primordial: melhorar os meus hábitos de alarve, saber o que comer e ver se descubro que raio de alimentos é que me dão cabo da tripa (porque já percebi que os há e pelo-me de medo de pensar que me vão arremessar com um “o glúten está a fuck o seu stomach”, e lá se me vão os bolos do caco com manteiga ao pequeno-almoço. Um breve momento para eu chorar por favor e fazer birra…pronto, já está!). O outro objetivo, não menos importante, é libertar-me deste peso a mais que, apesar de não se fazer sentir no dia-a-dia, faz-se notar sempre que vou comprar umas calças de ganga, um vestido mais justo ou o horror de um biquíni (este ano Cátia Filipa, ainda vais de burca pá praia filha, que a nutricionista pode ser boa, mas não é Deus, nem o ex-marido da Elsa Raposo para te sugar as banhas purum-tubo – pequeno momento de conversação comigo mesma, às vezes é preciso).

Assim, na loucura da tarde, ontem, fui ao site, registei os meus dados e cliquei em submeter.

Ao fim da tarde a nutricionista ligou e marcámos, o nosso encontro é amanhã. Ao fim da tarde.

Medo. Horror. E tragédia. No âmbito da supressão de hidratos e açucares simples.

 

Então, eu que tenho uma genética muito parecida com a de meu pai, mas ao contrário para determinadas cenas, decidi que, a melhor coisa a fazer - já que vou entrar numa espiral de cenouras e talos de aipo - é enfardar um valente croissant de chocolate. Despedir-me convenientemente dos hidratos, antes de eles me serem literalmente saqueados do prato.

Fomos à “nossa” pastelaria. Comprei um jesuíta (já não havia croissants de chocolate) gigante, cheio de cobertura de açúcar por cima. Disse adeus à massa folhada, bye-bye ao doce de ovo, aufiderzin à cobertura fina de açúcar.

Penso-me pronta para enveredar por uma vida mais equilibrada e feliz, ao lado das cenouras, dos talos de aipo, dos bifes grelhados sem molho, das batatas-doces no forno, do açúcar de coco, das farinhas alternativas, da chia e da maca. Sim, quero acreditar que vejo a luz, uma luz sem açúcar que brilha lá ao fundo.

 

(qualquer coisa compro o livro do Gustavo santos e passo a amar-me como nunca antes, amo-me ao nível 1 e depois amo-me ao nível 2. Tanto que me canso e tenho uma conversa comigo mesma e digo: “não és tu, sou eu, mas já não dá….”)

 

Nota: ainda não parei com o açúcar e já estou a alucinar, ou isso ou são os neurónios que andam a boiar de colete salva vidas com tanta água que bebi ontem.